Produção do espaço capitalista
Este módulo percorre a formação do capitalismo, a expansão industrial e colonial, a divisão simbólica entre Ocidente e Oriente, as crises do século XX, os blocos econômicos, a União Europeia e os debates sobre globalização e seus efeitos.
Capitalismo e Revolução Industrial
O capitalismo é um sistema socioeconômico baseado na propriedade privada dos meios de produção (terras, fábricas, serviços financeiros, etc.) e na acumulação de lucro. Na Grã-Bretanha, capital acumulado no período mercantilista financiou invenções como a máquina a vapor e o tear mecânico, marcos da Revolução Industrial.
O trabalho assalariado substituiu formas como servidão ou escravatura em muitos contextos — o trabalhador vende a sua força de trabalho e, em princípio, também consome bens no mercado. A urbanização acelerou-se com a migração para as cidades-fábrica; surgiram sindicatos e lutas por salários e condições no século XIX.
Transformações políticas como a independência dos EUA (1776) e a Revolução Francesa (1789) expressaram a ascensão da burguesia e de ideais ligados ao Estado nacional e aos direitos civis.
Colonialismo e Conferência de Berlim
O aumento da produção e do consumo no século XIX levou potências europeias a procurar matérias-primas e mercados — reavivando disputas coloniais. A Conferência de Berlim (1884–1885) ficou associada ao reparticionamento de influências na África, em articulação com outras regiões.
Meridiano de Greenwich e hemisférios
O meridiano de referência passa pelo Observatório Real de Greenwich (Londres) e divide a Terra em hemisfério ocidental e oriental. É uma convenção moderna — não confundir com os sentidos históricos e culturais de “Ocidente” e “Oriente”.
Ocidente, Oriente e Cortina de Ferro
As palavras “Ocidente” e “Oriente” mudaram de significado ao longo do tempo: por exemplo, a divisão do Império Romano (séc. IV) ou, no século XX, a oposição entre países capitalistas ligados aos EUA e países socialistas ligados à URSS — a Cortina de Ferro simbolizou essa fronteira ideológica na Europa.
Visões eurocêntricas associam “Ocidente” a Europa e colónias de povoamento; críticas contemporâneas lembram que valores como liberdade não são exclusivos de uma única “civilização”.
Saiba mais
Em geopolítica recente, “Ocidente” pode designar alianças como a OTAN mais países cultural ou economicamente alinhados; já “Oriente” incluiu, em contextos diferentes, Ásia Central, Médio Oriente ou “Extremo Oriente”. Os termos são construções históricas, não descrições neutras e fixas.
Segunda Revolução Industrial e capitalismo monopolista
No fim do século XIX, aço, eletricidade, motor a combustão e a nova química impulsionaram a Segunda Revolução Industrial. Empresas enormes passaram a dominar mercados — monopólios ou oligopólios — e os lucros alimentaram especulação com ações, crédito e taxas de juro.
- Ações
- Títulos que representam uma parte do capital de uma sociedade anónima; lucros podem distribuir-se sob a forma de dividendos aos acionistas.
Crise de 1929 e o Brasil
Nos anos 1920, prosperidade e forte movimento na bolsa nos EUA conviveram com produção em massa (fordismo) que, a certa altura, superou o consumo. Crédito fácil alimentou uma bolha especulativa; em 1929 os preços das ações desabaram, com desemprego e Grande Depressão.
O Brasil dependia de exportações de café; com a crise, os preços colapsaram (incluindo estratégias de queima de excedentes). A crise enfraqueceu a oligarquia cafeeira e contribuiu para o contexto da ascensão de Getúlio Vargas (1930), com políticas de substituição de importações e criação de bases para a industrialização (ex.: CSN, Petrobras, Eletrobrás, Vale — em diferentes momentos).
- Bolha especulativa
- Situação em que ativos são negociados a preços muito acima do valor “real”; instabilidade pode fazer a bolha “estourar”.
Após a Segunda Guerra Mundial
Nos EUA, o New Deal (anos 1930) investiu em grandes obras (barragens, estradas, parques) para combater a depressão. Após 1945, transportes e comunicações permitiram às multinacionais reorganizar a divisão internacional do trabalho (DIT).
Economias asiáticas como Coreia do Sul, Singapura, Malásia e Taiwan tornaram-se conhecidas como tigres asiáticos, com modelo de plataforma de exportações. Na China, reformas após Mao incluíram Zonas Econômicas Especiais (ZEE) que atrairam capital estrangeiro.
Blocos econômicos
Blocos econômicos integram países vizinhos para reduzir barreiras ao comércio e, em graus variados, coordenar políticas. Exemplos: USMCA (EUA, México, Canadá; sucessor conceptual do NAFTA); Mercosul (união aduaneira com tarifa externa comum); União Europeia — alto nível de integração, mercado comum e, em parte dos Estados, moeda única (euro).
Organizações supranacionais (como a UE) envolvem transferência de soberania para instâncias comuns em áreas como clima ou comércio.
União Europeia — linha geral
O Benelux (1944) foi um passo inicial; depois a CECA (1951) e a CEE (Tratado de Roma, 1957). O Espaço Schengen eliminou fronteiras internas entre muitos países. A UE ampliou-se para leste a partir de 2004; Croácia aderiu em 2013; o Reino Unido saiu após o Brexit (processo concluído em 2020). A UE é hoje um dos maiores blocos comerciais do mundo — ao mesmo tempo que enfrenta tensões com nacionalismos e fluxos migratórios.
Internacionalização, globalização e mundialização
- Internacionalização — crescimento das relações entre Estados, tratados e trocas.
- Globalização — integração da economia mundial, mobilidade de capitais e papel das empresas transnacionais (fenómeno ligado ao capitalismo contemporâneo).
- Mundialização — ênfase na difusão cultural (hábitos, consumo, média global).
Autores como David Harvey mostram como a melhoria dos transportes “encolhe” o mundo em termos de tempo de deslocação — o mesmo planeta, percursos cada vez mais rápidos.
Efeitos e desafios
A produção de bens complexos (ex.: aviões) divide-se por vários países — produção fragmentada. Regiões com infraestruturas e mão de obra barata atraem investimento; outras marginalizam-se. Migrações e turismo intensificam trocas culturais mas também riscos de homogeneização ou exploração laboral.
O crescimento econômico pressiona recursos naturais e ecossistemas; problemas como plástico nos oceanos e alterações climáticas exigem cooperação à escala planetária.
Espaço e tratados
O Tratado do Espaço Exterior (1967) estabelece que o espaço não pode ser apropriado por soberania estatal; debates recentes envolvem exploração comercial e ideias como Capitalocene — crise ambiental ligada à lógica capitalista, não apenas à “humanidade” em abstracto.
Resumo
- Capitalismo industrial, colonialismo e reorganização do mundo.
- “Ocidente/Oriente” têm sentidos históricos variados.
- Crises (1929), Fordismo, industrialização no Brasil.
- Blocos econômicos e UE como respostas à guerra fria e à integração.
- Globalização gera integração e desigualdades ambientais e sociais.