História · Módulo 1

Século XX

A Primeira Guerra Mundial

Este módulo estuda as tensões que antecederam o conflito, as alianças militares, o estopim de 1914, a mundialização da guerra, a tecnologia bélica, o papel do Brasil e dos EUA, a propaganda e a participação feminina — com base no programa de História do 9º ano do Ensino Fundamental.

Um barril de pólvora: os Bálcãs

No século XIX, a competição econômica e o nacionalismo exacerbado na Europa criaram um clima de grande tensão. A região dos Bálcãs tornou-se especialmente sensível: vários povos conquistaram independência do enfraquecido Império Otomano (entre eles Grécia, Bulgária, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Albânia).

Dois impérios disputavam influência na zona: a Rússia, aliada da Sérvia e interessada em expandir a sua influência com base no pan-eslavismo; e o Império Austro-Húngaro, que pretendia consolidar o domínio sobre a Bósnia. Essa disputa pelos Bálcãs foi uma das causas diretas da Primeira Guerra Mundial.

Tríplice Entente e Tríplice Aliança

Estados com rivais comuns formaram alianças militares para se protegerem de ataques. Essas alianças eram frequentemente circunstanciais: não significavam amizade profunda — muitas vezes os mesmos países competiam economicamente, mas uniam-se face a adversários comuns.

A Tríplice Entente reuniu, em linhas gerais, Inglaterra, França e Rússia. A Tríplice Aliança incluía Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália (esta última mudaria de posição durante o conflito).

Imprensa e revistas difundiam sentimentos de superioridade nacional e hostilidade em relação aos rivais, alimentando a convicção de que uma guerra seria rápida e vitoriosa — ideia que se revelou falsa.

Paz Armada e o estopim em Sarajevo

Depois da formação das grandes alianças, entrou-se num período chamado Paz Armada: os Estados investiam em armamento e as populações, em parte, acolhiam com entusiasmo a ideia de um confronto que mostraria a “superioridade” do país. Faltava um incidente que desencadeasse o conflito.

Guerra total

Conflito em larga escala que mobiliza recursos econômicos, militares e sociais de um ou vários países envolvidos.

Em 28 de junho de 1914, o príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, e a sua esposa foram assassinados em Sarajevo (Bósnia), numa visita oficial. O autor do atentado foi o estudante sérvio Gavrilo Princip, ligado à organização sérvia Mão Negra, que lutava contra o domínio austro-húngaro na região e defendia o pan-eslavismo.

O evento foi descrito como a “faísca sobre o barril de pólvora”: a Áustria declarou guerra à Sérvia; a Rússia apoiou a Sérvia; a Alemanha apoiou a Áustria e declarou guerra à Rússia; e, gradualmente, outros países das duas coligações foram arrastados para o conflito — dando origem à Primeira Guerra Mundial.

A mundialização da guerra

Em 1914, multidões em várias capitais europeias celebraram o início da guerra, acreditando numa vitória rápida. Com o tempo, o conflito alargou-se: entraram na Tríplice Aliança (ou no bloco das Potências Centrais) países como a Turquia e a Bulgária; na Entente entraram, entre outros, Japão, Romênia e Grécia.

A Itália, inicialmente ligada à Tríplice Aliança, permaneceu neutra e depois alinhou com a Entente, esperando ganhos territoriais face aos austro-húngaros e turcos. Como o capitalismo se havia espalhado pelo mundo, a guerra entre as grandes potências afectou também colónias e economias periféricas, direta ou indiretamente.

Trincheiras, armas novas e destruição em massa

O progresso industrial aplicou-se à guerra: surgiram estratégias e armamento inéditos. Os exércitos cavaram trincheiras protegidas por arame farpado; soldados passavam meses no lamaçal, com risco de tiros, bombas, gás, ratos e piolhos — avançar poucos metros custava muitas vidas.

Usaram-se metralhadoras (taxas muito elevadas de disparos por minuto), gases asfixiantes e tóxicos, aviões e dirigíveis (ex.: Zeppelin alemão), tanques para ultrapassar trincheiras, submarinos que cortavam abastecimentos marítimos, e milhões de animais (cavalos, mulas, cães, pombos-correio, etc.), por vezes também protegidos com máscaras contra gás.

Estima-se que cerca de 65 milhões de soldados tenham sido mobilizados — muitos alistados por entusiasmo ou propaganda; outros, por conscrição obrigatória.

O Brasil e a guerra

O Brasil iniciou o conflito neutro. A economia dependia de exportações (notadamente café) e de importações industriais; a guerra provocou queda nas exportações, falências no campo, desemprego e carestia, mas também estimulou o crescimento da indústria nacional quando faltavam produtos estrangeiros.

Em 1917, navios brasileiros como o Paraná e o Macau foram torpedeados por submarinos alemães. O governo rompeu relações com a Alemanha e passou a apoiar a Entente, enviando patrulhas navais e, em 1918, médicos e oficiais à Europa.

Entrada dos EUA e fim da guerra

Os Estados Unidos, após apoio econômico à Entente, entraram em guerra em 1917, em parte devido ao afundamento de navios americanos por submarinos alemães. Em 1918, a Rússia retirou-se após a revolução bolchevique, mas o reforço americano pesou nas derrotas das Potências Centrais.

Propôs-se um armistício (cessação das hostilidades). Na Alemanha, o imperador Guilherme II foi deposto e proclamou-se república; o novo governo assinou a rendição. O tratamento punitivo imposto à Alemanha contribuiu, mais tarde, para o ressentimento que ajudaria a explicar a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial.

Armistício

Trégua ou acordo que interrompe temporariamente ou encerra o combate armado entre beligerantes.

Propaganda, censura e “bourrage de crâne”

Durante a guerra, governos e imprensa manipulavam informação: cartazes, canções, charges e jornais exaltavam o país e desumanizavam o inimigo; cartas de soldados podiam ser censuradas se contivessem notícias “antipatrióticas”. Em francês, falava-se em bourrage de crâne — expressão que evoca a ideia de “encher a cabeça” com narrativas nacionalistas, ocultando derrotas e exagerando vitórias.

“A primeira vítima, quando começa a guerra, é a verdade.” — frase atribuída ao senador norte-americano Hiram Johnson (1917), citada em manuais para ilustrar o controle da informação em tempo de guerra.

Mulheres no trabalho e novos direitos

Com os homens mobilizados, as mulheres ocuparam postos em fábricas de munições, comércio e serviços — por exemplo, estima-se que cerca de 800 000 mulheres trabalhassem na indústria bélica só em Inglaterra, e que o peso das mulheres no mercado de trabalho britânico subisse para cerca de 50% durante o conflito. Em França, trabalhadoras de fábricas de munições ficaram conhecidas como munitionnettes.

Essa participação reforçou reivindicações políticas: nos anos seguintes, mulheres obtiveram o direito de voto em vários países europeus e norte-americanos, num processo em que a guerra foi um factor acelerador — embora a luta pelo sufrágio fosse mais antiga.

Resumo

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