História · Módulo 2

Século XX

Revolução Russa e formação da URSS

Do Império dos czares à industrialização e às tensões sociais; o marxismo e a cisão entre mencheviques e bolcheviques; a Primeira Guerra na Rússia; as revoluções de 1917; o governo bolchevique, a guerra civil e o tratado de Brest-Litovsk; a URSS, a sucessão de Lenin e o regime de Stalin — em linha com o programa de História do 9º ano.

Império, industrialização e oposição ao czarismo

No início do século XX, a industrialização acelerada atraiu camponeses às cidades e formou um proletariado industrial russo, com jornadas duras, salários baixos e pobreza. São Petersburgo (capital entre 1712 e 1918) era um polo fabril e um símbolo da ocidentalização voluta dos czares, mas o regime permanecia autocrático: a burguesia e os intelectuais defendiam ideias liberais, enquanto o czar se apoiava em latifundiários, na Igreja Ortodoxa e na polícia secreta (Okhrana), reprimindo dissidentes.

A concentração de terras, a exploração no campo e na cidade e a repressão política geraram descontentamento comparável, em parte, à situação da França pré-1789 — um caldeirão que explodiria em ondas de protesto.

1905: Domingo Sangrento, sovietes e Duma

O Domingo Sangrento de 1905 (9 de janeiro no calendário juliano / 22 de janeiro no gregoriano) gerou greves, motins e a revolta do couraçado Potemkin. Surgiram os sovietes — conselhos de trabalhadores para organizar a luta. Pressionado, o czar Nicolau II aceitou a Duma (parlamento), numa fase de monarquia constitucional; mas, até 1907, dissolveu a Duma e retomou o poder de forma autoritária. A experiência de 1905 ficou como ensaio para 1917.

Marxismo e a cisão mencheviques / bolcheviques

Karl Marx (1818–1883), em obras como O Capital, criticou o capitalismo: os trabalhadores seriam expropriados da riqueza que produzem, retida pelos capitalistas. A luta de classes levaria à revolução e à tomada dos meios de produção, rumo ao comunismo — organização em que os produtores controlariam a riqueza e a repartição seria mais equitativa.

O POSDR (Partido Operário Social-Democrata Russo), fundado em 1898, inspirava-se no marxismo. Em 1903, dividiu-se em mencheviques (“minoritários”) e bolcheviques (“majoritários”):

A Rússia na Primeira Guerra Mundial

A participação russa na guerra foi desastrosa: mais de 1,7 milhão de mortos em pouco mais de um ano, soldados mal equipados, cerca de 25% da indústria destruída, perdas agrícolas e escassez de alimentos e bens — em meio a miséria generalizada.

Em Petrogrado, filas por pão e frio transformaram-se em espaços de debate; greves multiplicaram-se. Em 9 de janeiro de 1917 (aniversário do Domingo Sangrento), cerca de 150 000 trabalhadores saíram à rua; relatórios indicam que soldados saudaram as bandeiras vermelhas — sinal de que o exército deixava de ser fiel ao czar. Os sovietes reorganizaram-se com força; em 1917 ruía a ordem czarista secular.

Revolução de fevereiro de 1917 e calendários

A mobilização popular derrubou Nicolau II e proclamou a República. No calendário juliano (ainda em uso na Rússia czarista), a data simbólica é 27 de fevereiro de 1917; no gregoriano (usado no Ocidente), corresponde a 12 de março de 1917 — a Rússia só adotou o gregoriano depois da revolução.

A tabela abaixo resume algumas datas (juliano / gregoriano):

Evento Juliano Gregoriano
Domingo Sangrento (1905) 9 jan. 22 jan.
Revolução de fevereiro 27 fev. 1917 12 mar. 1917
Revolução de outubro 24 out. 1917 6 nov. 1917

Governo Provisório, Lenin e outubro de 1917

O Governo Provisório, associado aos mencheviques e liderado por Alexander Kerensky, manteve a Rússia na Primeira Guerra, não repartiu as grandes propriedades nobres e não resolveu fome nem salários — apenas avanços políticos como maior liberdade de expressão e fim da censura pré-revolucionária à imprensa.

Lenin voltou do exílio e lançou o lema «Paz, terra e pão», convocando os sovietes a tomarem o poder. Em outubro de 1917 (25 de outubro juliano / 7 de novembro gregoriano), um congresso de sovietes depôs o Governo Provisório e instituiu o Conselho dos Comissários do Povo, encarregado de orientar o país rumo ao socialismo.

Primeiras medidas, decreto da terra e Brest-Litovsk

Entre as medidas iniciais: divisão de terras entre camponeses, controlo operário sobre fábricas, nacionalização dos bancos, campanhas de alfabetização, ampliação de direitos das mulheres (pela primeira vez uma mulher foi ministra de Estado), maior reconhecimento a etnias e criação do Exército Vermelho, associado a Leon Trotsky. O decreto da terra (outubro de 1917) aboliu a propriedade privada da terra e entregou grandes propriedades aos comités agrários e aos sovietes.

Em março de 1918, a Rússia assinou o Tratado de Brest-Litovsk com a Alemanha, saindo da guerra mediante cessão de territórios (ex.: Finlândia, Países Bálticos, Polónia, Ucrânia) e indemnização (da ordem de 6 bilhões de marcos). Após a derrota alemã em novembro de 1918, o tratado foi anulado e parte desses territórios voltou a ser disputada ou recuperada.

Guerra civil, «brancos» e «vermelhos»

O projeto bolchevique enfrentou resistência interna e externa: aristocratas, partidários do czarismo, burguesias despojadas, socialistas moderados e intervenção de potências capitalistas que temiam a expansão da revolução. Em 1918 eclodiu a guerra civil entre o Exército Vermelho (bolcheviques) e o Exército Branco (opositores), com uso intenso de propaganda (exagero, maniqueísmo, simplificação, repetição de narrativas).

Em 1921, os bolcheviques venceram, com país devastado, milhões de mortos e fome — em Buzuluk e outras regiões, cenários dramáticos levaram Lenin a pedir ajuda humanitária ao estrangeiro. Os sovietes perderam influência face ao Conselho dos Comissários; reforçou-se a centralização e o partido único.

Mulheres: greves, Kollontai e direitos

Organizações como a União pela Igualdade das Mulheres (circa 1905, São Petersburgo) lutaram pelo voto e por direitos civis. Em 8 de março de 1917, cerca de 90 000 operárias (sobretudo têxteis) grevistam em Petrogrado, exigindo pão, o regresso dos maridos das trincheiras e aumento de salários — episódio considerado por muitos historiadores como estopim da fase revolucionária de 1917.

Aleksandra Kollontai destacou-se na defesa do voto feminino, da divisão do trabalho doméstico e do acesso das mulheres à política. O Código de Família de 1918 foi o primeiro a estabelecer igualdade civil e política formal entre homens e mulheres; o casamento passou a ser instituição civil e o divórcio ficou mais acessível.

A partir dos anos 1930, sob pressão política e demográfica, parte das políticas progressistas recuou: divorcio mais difícil, ênfase na mulher como «operária e mãe» e propaganda de «mães heroínas» — em contraste com cartazes anteriores que celebravam só a participação industrial feminina.

URSS (1922) e sucessão de Lenin

Os bolcheviques organizaram o Partido Comunista; em 1922 fundou-se a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), integrando a Rússia e diversos territórios do antigo império sob influência do Exército Vermelho. O Soviete Supremo era o órgão legislativo formal, mas o poder real concentrava-se na direção do Partido Comunista.

Com a morte de Lenin em 1924, disputaram a liderança, entre outros, Leon Trotsky (herói militar da guerra civil) e Joseph Stalin. Trotsky foi exilado em 1927 e assassinado no México em 1940, vítima de um agente stalinista.

Stalin: terror, gulags e culto à personalidade

Stalin consolidou um regime de centralização extrema, censura, prisões em massa, tortura e mortes — eliminando opositores reais ou supostos. Os gulags (campos de trabalhos forçados) tornaram-se símbolo do terror; obras como o canal Mar Branco–Báltico (1932) custaram vidas humanas em condições extremas. A propaganda associava Stalin a Marx, Engels e Lenin, construindo um culto à personalidade.

Resumo

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