Português · Módulo 1

Poesia lírica

Poesia lírica: as três dimensões da criação poética

Leitura de poemas clássicos e contemporâneos, reflexão sobre o amor nas artes e estudo das dimensões sonora, imagética e conceitual da criação poética.

Leitura

Poucos pintores entrelaçaram de forma tão inextricável arte e vida. O trabalho de Chagall e sua existência diária transformaram-se ambos em sua tríplice fixação: o judaísmo, a Rússia e o amor.

WULLSCHLAGER, Jackie. Chagall amor e estilo. Trad. Maria Sílvia Mourão Netto. São Paulo: Globo, 2009. p. 17.

Aniversário, de Marc Chagall, 1915 (óleo sobre tela, 80 cm × 100 cm).

Namoro em Veneza, de Antonio Paoletti (óleo sobre tela, 42 cm × 68 cm).

Para discutir

  1. Consideras que, sendo o amor um tema tão “batido”, artistas da nossa época ainda podem explorá-lo sem cair no lugar-comum? Esse tema ainda provoca interesse? Justifica.
  2. Os dois quadros referidos representam o tema do amor. Qual deles escapa mais ao lugar-comum — Aniversário, de Marc Chagall, ou Namoro em Veneza, de Antonio Paoletti? Justifica.

Texto I

Soneto

Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente; é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é cuidar que se ganha em se perder. É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade. Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor? CAMÕES, Luís Vaz de. Rimas. Coimbra: Almedina, 1973, p. 119.

Luís Vaz de Camões (c. 1525–1580)

O mais célebre poeta português, autor do poema épico Os Lusíadas, considerado a obra máxima do Renascimento português. Sua poesia lírica foi publicada postumamente, reunida no livro Rimas.

Texto II

XIII — da série Via Láctea

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A Via Láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. BILAC, Olavo. Via Láctea. Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2011.

Continuação — Via Láctea

Direis agora: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?” E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” BILAC, Olavo. Via Láctea. Poesias. São Paulo: Martin Claret, 2011. p. 51.

Olavo Bilac (1865–1918)

Um dos maiores nomes do Parnasianismo, nasceu no Rio de Janeiro. Teve grande popularidade durante sua vida, tendo sido eleito “Príncipe dos poetas brasileiros”, em 1913, em votação realizada pela Fon-fon, revista muito popular na época. É ele o autor da letra do Hino à Bandeira do Brasil (1906). Seus livros foram reunidos, a partir de 1888, em um volume intitulado Poesias. O poema “Ouvir estrelas” é o décimo terceiro de uma série de 35 sonetos intitulada “Via Láctea”.

Texto III

Poemas da amiga — [VIII]

Gosto de estar a teu lado, Sem brilho. Tua presença é uma carne de peixe, De resistência mansa e um branco Ecoando azuis profundos. Eu tenho liberdade em ti. Anoiteço feito um bairro, Sem brilho algum. Estamos no interior duma asa Que fechou. ANDRADE, Mário de. Poesias completas. São Paulo: Martins, 1974. p. 211–212.

Mário de Andrade (1893–1945)

Poeta, prosador e musicólogo paulista. Foi um dos principais líderes da Semana de Arte Moderna (1922), marco inicial do movimento modernista brasileiro. Autor de Macunaíma (prosa) e de Pauliceia desvairada, Losango cáqui, Remate de males (poesia), dentre outros.

Texto IV

Carestia

Amor custa bem caro. Mesmo assim depenamos bolsos e bolsas de moedas raras. Por ele pagamos, em prestações nem sempre suaves, quanto de entrada supúnhamos de todo não poder: o alto preço dos sustos, a conta escorchante das noites em claro, os juros extorsivos do medo de perdê-lo, a tristeza do saldo zero. Queixamo-nos de carestia se de amor-próprio ainda nos sobra algum trocado, mas que fazer quando só amor é o lucro que buscamos? CABRAL, Astrid. De dia em dia: poemas reunidos (1979–1994). Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998. p. 31.

As dimensões da criação poética

Ao criar um poema, o poeta trabalha com a linguagem em três dimensões básicas, como mostra o diagrama.

Três dimensões da criação poética Três círculos sobrepostos: dimensão sonora (azul), imagética (vermelho) e conceitual (roxo), com termos em cada região. Dimensão sonora ritmo · musicalidade métrica · rimas aliterações Dimensão imagética representações mentais e visuais · descrições figuras de linguagem Dimensão conceitual raciocínio · pensamento · ideias

Essas três dimensões estão sempre presentes em todo poema, embora uma delas possa prevalecer sobre as outras.

Dimensão sonora

Para muitos teóricos e muitos poetas, essa é a dimensão essencial da poesia: sonoridade, entoação, melodia — sobretudo, ritmo.

Poesia e emoção

O palavrão é a mais espontânea forma da poesia. Brota do fundo d’alma e maravilhosamente ritmada. Se isto indigna o leitor e ele solta sem querer um daqueles, veja o belo verso que lhe saiu, com as características do próprio: ritmo e emoção – sem o que, meu caro senhor, não há poesia […].

QUINTANA, Mário. A vaca e o hipogrifo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012. p. 139.

Esse texto é uma brincadeira do poeta gaúcho Mário Quintana, que comete um exagero para definir de modo bem claro as duas condições essenciais da poesia: exprimir emoção e ter ritmo, musicalidade.

No entanto, ela é escrita para ser lida, ou seja, falada — oralmente, ou apenas mentalmente. Não tem o recurso das letras de canções, que só alcançam a plena realização quando são cantadas, ou seja, quando as ouvimos.

[…] estou pensando no mistério das letras de música tão frágeis quando escritas tão fortes quando cantadas […]

CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. São Paulo: Perspectiva, 2015. p. 209.

Por isso, como já estudaste, os poetas selecionam, combinam e ordenam as palavras de modo a obter efeitos expressivos. O recurso mais utilizado para a intensificação da musicalidade e do ritmo é a repetição – de fonemas, de sílabas, de palavras e até de versos inteiros.

Dimensão imagética

Combinando palavras, o poeta cria representações originais da realidade que provocam a imaginação do leitor. Ele não quer representar apenas a aparência, ou seja, o que é evidente ao senso comum. Procura apreender a essência das coisas, o que elas têm de mais belo, de mais emocionante ou de mais terrível. Através da poesia, vemos com os olhos da alma. Vemos com a imaginação.

No Texto I, Camões, em vez de dizer, de modo genérico e abstrato, que o amor nos faz sofrer, criou uma série de imagens que dão concretude a esse sofrimento. Por exemplo, na metáfora “[o amor] é ferida que dói”, o abstrato (amor) torna-se concreto (ferida). Sentimos o sofrimento da alma com o arrepio que nos provoca a visão de uma ferida aberta em nossa carne.

Dimensão conceitual

A poesia não se faz apenas de sensações (musicalidade e imagens). Ela é feita também de pensamentos, raciocínios, definições, ou seja, possui uma dimensão conceitual.

O poeta não desenvolve conceitos comuns, mas procura pensar a vida e o mundo de um modo novo, original, surpreendente. O eu lírico supera a separação que fazemos entre a razão e o sentimento, raciocina com o sentimento e com as sensações. Em poesia, pensamos sentindo.

É dessa forma que o poeta revela dimensões do mundo e da vida que não podem ser apreendidas apenas com a frieza do pensamento racional. A dimensão conceitual é o pensamento poético desenvolvido no poema.

Resumo